Periferia, Educador Social e o Terceiro Setor

A periferia é o lugar de fala de muitos brasileiros, e em alguns aspectos parece um mundo paralelo onde índices preocupantes alertam a sociedade que responde de forma desinteressada, mas fora o contexto de problemas sociais, como pobreza, marginalidade, e a falta de acessibilidade a direitos básicos, existe dentro desse espaço um mundo plural que segue se desenvolvendo, apesar de toda precariedade.

Um ator muito significado dentro desse espaço é o Terceiro Setor, tendo agentes impares na interação com jovens, adultos e adolescentes: os educadores sociais.  Não retirando a contribuição dos demais profissionais que atuam com políticas públicas, mas observando especificamente para esse profissional é indispensável entender seu papel, e desafios frente a rotina diária.

Em 2006, quando tive a oportunidade de fazer um curso profissionalizante na Ação Comunitária que hoje recebe o nome de Vocação, pude aprender noções administrativas, descobri outras funções do computador, além de acessar o Orkut e MSN. Esse contexto parece ser muito retrô, porém as mídias apenas mudaram e se popularizaram. Recordo que fiz teatro básico para melhorar minha comunicação interpessoal. Mas sobre tudo, tive educadores que se tornaram o referencial que tenho comigo até hoje. O eixo principal tratado nesse curso era um portfólio que recebe o nome de Projeto de Vida; com esse trabalho pude entender a história da minha família, tratar de pontos pessoais sobre o presente, e o futuro que eu esperava atingir dentro de meus objetivos. É importante trazer esse relato, pois entendo que esse curso me impulsionou a estabelecer as diretrizes do que parecia ser impossível para mim enquanto eu estava no ensino médio: chegar a graduação. 

Estamos em 2019, e apesar do desmonte dos diretos, cursar uma graduação ainda é mais acessível do que há dez anos atrás. E por acreditar na educação, escrevo esse texto para falar do meu lugar de fala, e da minha bandeira. O Terceiro Setor transforma vidas, a educação transforma vidas, e a periferia é um lugar com arte, intelectuais, e gente se formando para quebrar segregações sociais, assim como sigo fazendo. 

Sei que vivemos um momento onde existe um paradigma muito relevante frente as questões de informação e conhecimento, afinal estamos passando pela revolução digital, e por conta disso, é preciso repensar os meios da prática educativa, pois a educação em geral impacta pessoas, e nisso, não vamos especificar pobres e ricos, mesmo sabendo que para os pobres os recursos são mínimos. Mas apesar disso, existem organizações da sociedade civil ensinando artes, pautas de tecnologia, e direcionando pessoas para uma realidade melhor. 

Por isso, é importante se atentar à articulação do educador social nas favelas, e em como ele pode fazer diferença para alguém da periferia. A educação formal ainda vive sobre os moldes fabris onde o foco é totalmente conteudista, e sob o olhar de um Estado despreocupado, por isso, é evidente que outros meios de conhecimento podem contribuir na formação de alunos que desconhecem o seu potencial, assim como foi comigo.

A periferia é um lugar de construção de saberes, e os educadores sociais são fundamentais nesse processo. Então, não acreditem em tudo o que passa na televisão: morremos pela violência das grandes cidades, mas lutamos pela paz, e nos desenvolvemos através da luta e esperança de tempos melhores.

Dedico esse texto aos meus educadores Eliane, Viviane e Ronni. E todos aqueles que desafiam o sistema mudando o cenário dessa realidade que nos massacra, porém não nos elimina. 

Por Almir Santana 

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