Olhei para o céu, lembrei de ti!
Cheguei do outro lado do mundo e aqui tudo parece um pouco frio. As pessoas são altas, olham reto, e ninguém me percebeu ainda. Não tenho amigos, não tenho livros e tenho apenas moedas no bolso. Trouxe moedas. Minha tia me entregou algumas no aeroporto. Papai e mamãe parecem mais cansados do que quando morávamos no Brasil.
Uma senhorinha de olhar azulado, aquele azul bem azul, falou algo com mamãe no mercado. As duas riram, mas eu não entendi nada. Mamãe é sempre tão gentil; ela diz que a gentileza faz o mundo ficar melhor. Papai retruca dizendo que nem todo mundo merece gentilezas. Eu decidi escrever esta carta como uma gentileza.
Hoje está bastante frio, chovendo durante a manhã e a tarde. Ainda não é noite, então não sei dizer se vai continuar chovendo. Papai disse que preciso estar na cama às 21h. Reclamei, porque quero ver um filme na televisão. Ele me respondeu que, quando eu não tiver mais dentes de leite, poderei decidir a hora de ir para a cama.
Fico fazendo planos para quando eu for adulta. Quero comprar uma casa, um jato e um carro. E meu marido será meu mordomo. Uma vez, a titia disse à mamãe que seria melhor ter um mordomo do que um marido, e eu acho que, se eu tiver um marido que faça os trabalhos de mordomo, economizarei.
Na televisão ouvi dizer que economizar faz bem. Por isso, guardarei minhas moedas até o próximo verão. Eu gosto muito do verão, quando posso usar vestidos floridos e nadar nos rios perto da casa dos meus avós. Sinto muita saudade deles, e faz tão pouco tempo que nos despedimos. Acho que a saudade começa antes de dizer adeus.
Confesso que também sinto saudades de você. Escrevi esta carta porque olhei para o céu e lembrei de ti. Você não é nuvem, não é azul, mas algo no céu me fez lembrar de você. O céu daqui não parece com o céu de São Paulo. É menos cinza. Mas acho que tudo é o mesmo céu, como uma grande lona que cobre a terra. Papai disse que pessoas estúpidas acham que a terra não é redonda. E eu acredito que ela seja redonda, porque a lona azul cobre tudo. Menos a saudade.
Até o próximo verão, e enquanto não nos vermos, vou olhar para o céu e lembrar de ti.
Por Almir Santana
Comentários
Postar um comentário