Diversidade não é produto pop



O conceito de diversidade tem sido falado de forma muito ampla no mercado de trabalho, e dentro das muitas faltas que o Brasil vive, isso é um ganho, mas em contra ponto é preciso termos atenção a essa temática. 

Vejo empresas vestindo uma roupagem comercial, mas sem muita representatividade. Atuando apenas dentro de um cenário midiático, porque em alguns casos se tornou interessante falar de minorias, mas sem muito aprofundamento, porque não existe interesse em impacto social, o foco permanece sendo o retorno apenas em lucratividade. Com isso, descartando a pluralidade da compreensão contextual em que a diversidade se forma. Falta propósito.

Prometo não me alongar em todas as especificações que gostaria de trazer, mas levantarei pontos relevantes em nossa conversa hoje.

Em maio de 2019 estive em uma palestra no MIS (Museu da Imagem e Som), na capital paulista, onde Ana Maria Gonçalves, a escritora do livro O Defeito da Cor transcorria sobre a sociedade atual que coloca o negro como uma demanda inclusiva, mas sem entender detalhes de seu lugar de fala. Ouvir suas ponderações me trouxe uma série de reflexões. Entendo que alguns espaços acabam falando sobre a literatura de autoria negra, cinema, moda e criação como se fosse algo recente, mas não diferente do homem eurocêntrico, o negro segue com suas contribuições para a humanidade desde sempre, indiferente da área de atuação. Querer supor limitações a um indivíduo não é atuar com diversidade, é simplesmente seguir demandas, e isso não é uma atuação de efetividade quanto ao combate às desigualdades.

Além disso, percebo empresas indicando um posicionamento de apoio ao grupo LGBTQ+, mas sem especificar em que ações atuam. Propor para a sociedade que diversidade em times é a única forma de apoio, não me parece ser algo estruturado. Rotulagem não é o único fator que trará conforto para que cada indivíduo se permita a ser quem é, afinal estamos no país que mais mata esse grupo em todo o mundo. Por isso, é evidente que no mercado de trabalho existe uma raiz machista, conservadora, e de grande impacto nas relações humanas quando se trata de pessoas com uma orientação sexual diferente do esperado.

A simples exposição fora da posição hétero normativa pode gerar uma situação desagradável ou conflito. Vou compartilhar um exemplo: Maria era casada com Suzana, o chefe de Maria soube disso, e fez uma série de piadinhas sobre a sexualidade da componente de seu time. Parece mentira, mas aconteceu com Maria, e pode acontecer de forma pior com outras pessoas.

Apesar das dificuldades apresentadas no mercado de trabalho, penso que um fator positivo dentro do cenário de diversidade é o espaço conquistado pelas mulheres, seja no campo empreendedor, pesquisa, tecnologia, ou o que elas queiram fazer. Elas seguem se destacando cada vez mais. Mesmo assim recordo que tive pouquíssimas diretoras nas instituições em que trabalhei. Vi colegas de trabalho perdendo suas posições, pois não quiseram acordar um período menor para a licença maternidade. O direito se limita ao interesse do empregador, então alguns pontos acabam não sendo negociáveis.

Olhar para essa temática é pensar em uma vastidão de atores representativos. No Brasil, temos 305 povos indígenas, com dialetos e especificações culturais. Eles estão espalhados por todos os estados do país, mas por que eles não são considerados com relação a essa discussão? Será que as empresas não percebem que eles fazem parte da diversidade? Os livros indicam ideias genéricas, onde o índio é um indivíduo sem compreensão de brasilidade, mas na verdade esses povos sofrem há mais de 500 anos para que não tenham seus grupos e costumes extintos.

Em períodos de golpes discursivos, aconselho que nos voltemos para compreensão das propostas que surgem na sociedade. Não podemos nos deixar levar pelas correntezas da crise do senso crítico. O maior problema não é o desafio da integração que alguns acreditam que deve ser feita, mas sim, a compreensão de que o diferente precisa ser respeitado, e ter o mesmo direito de ocupação de espaços na escola, na faculdade, e principalmente no mercado de trabalho.

Ser nordestino, periférico e pobre é um desafio, pois meu CEP contextualiza minha origem, mas não limita minha capacidade, apesar de entender que minha posição social me leva para uma margem do rio atrás daqueles que conhecem mares. Entretanto, estou aqui para dizer que o diferente não é produto pop, ele é um agente de contribuição social. É difícil defender o obvio, mas não é custoso entender. Espero que nosso café tenha feito se atentar a isso. Obrigado.

Por Almir Santana



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