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Amor, me oferece uma música da Angela Ro Ro.

A mulher do segundo andar era uma senhora muito séria, de poucas palavras e pouca expressão. Ela morava no prédio da frente, aquele da Avenida Mestre Sala, com grandes janelas. E nós, no prédio de 04 andares da rua de trás, colado, quase um puxadinho desse que lhe descrevo. Minha mãe diz que aquele prédio é boa herança de quem teve sorte de comprar um bom lugar em nossa região, porque São Paulo segue em compartilhar espaços quadriculados aos seus moradores. As emoções estão cada vez menores, e para isso se faz necessária a existência de pequenos espaços. Mas naquele apartamento deve caber muita coisa. De longe, sempre observo o trabalho rotineiro de fechar e abrir cortinas. Desde sempre, reparo nela. Na verdade, gosto de reparar no mundo, em tudo à minha volta: em pessoas, em seus narizes, bocas e pés. Não é nada além de curiosidade, porque, na minha idade, o muito olhar pode ser interpretado como desejo, mas só tenho curiosidade mesmo. E, se tem alguém perto de mim, trato de imaginar ...

Depois da lápide

Em junho, tia Marizete partiu. Já não tínhamos tanto contato como antes, pelos distanciamentos naturais que a vida impõe, mas eu guardo muitas boas lembranças dela. E, quando a morte chega, desde que perdi meu irmão caçula, em 2023, é como se eu revivesse um pouco daquela dor. Sempre que sei que alguém se foi, reencontro aquele mesmo vazio. Me deparo com uma parte de mim que não sabe se comunicar com o mundo. Entendo que se trata de um vazio que nos empurra para uma espécie de apatia. Porque, depois que você ouve que precisa ser forte, seguir em frente e continuar vivendo, no fim das contas, você está sozinho. No começo, chegam muitas palavras de conforto, mas há uma dor que não consegue acolhê-las. Entretanto, o luto, em sua essência, é uma travessia solitária. Penso no luto como um vasto chão sem direção. Nos últimos anos, meu ciclo de amigos tem diminuído. Não porque eu tenha deixado de gostar das pessoas que amo, mas porque a vida é assim. Aos poucos, vamos nos recolhendo às nossas...

O que eu aprendi com as abelhas solitárias

Esses dias ouvi falar sobre as abelhas solitárias e achei esse contexto muito interessante. São abelhas que, de alguma forma, se afastam de seu grupo e, mesmo assim, continuam sendo abelhas. Elas são muito importantes no processo de polinização das flores. Esse contexto me levou a outros lugares e me fez lembrar de quando saí da igreja, em 2019. Porque ali eu era parte de uma comunidade, eu fazia parte de um grupo, ou pelo menos acreditava que fazia. Lembro que a maioria dos garotos da igreja não se aproximava de mim e que, quando estavam em uma rodinha conversando e eu me aproximava, eles saíam. Eu não entendia muito bem o motivo disso acontecer, mas hoje entendo que o meu jeito era o motivo dessas hostilidades. Eu ouvia piadas, percebia olhares maldosos e, mesmo sem dar muito motivo, acabava fazendo parte de contextos em que o meu nome era citado: “E o Almir, hein? Tem um jeitinho, né?” Piadas maldosas, comentários de duplo sentido e várias agressões psicológicas. Minha voz mansa, o ...

Coisas de mar e adeus entre sala e o quarto

Levantei cedo, antes do sol. Sonhei com o mar; no sonho, fitei algo bem distante. Era o meu último dia ali. Parecia que eu estava me despedindo, que algo soava um pouco triste. Se eu pudesse escrever uma carta de adeus, eu deixaria escrito nela aquilo que não importa muito a ninguém, mas que me deixou minimamente realizado. Não seria uma carta de desabafo ou reflexão cansada. Eu falaria dos dias bonitos, do barulho do mar, dos dias em que eu me senti muito feliz, das poesias que eu escrevi, mesmo sem destino. Eu contaria das vezes em que me perdi em São Paulo, em Melbourne e em Dublin. Mas já me perdi em João Pessoa também, mesmo a cidade sendo meu lar. Tem dias que me perco entre a sala e o quarto. Algo meu fica pela casa, e não é por desatenção. Desde sempre sou assim. Eu costumava falar muito, rir demais, ter uma energia muito grande, mas algo me ocorreu. Foi drástico, doloroso e ainda me persegue. É como uma grande sombra que me engole. Existem momentos em que sou tomado por lembra...

Olhei para o céu, lembrei de ti!

Cheguei do outro lado do mundo e aqui tudo parece um pouco frio. As pessoas são altas, olham reto, e ninguém me percebeu ainda. Não tenho amigos, não tenho livros e tenho apenas moedas no bolso. Trouxe moedas. Minha tia me entregou algumas no aeroporto. Papai e mamãe parecem mais cansados do que quando morávamos no Brasil. Uma senhorinha de olhar azulado, aquele azul bem azul, falou algo com mamãe no mercado. As duas riram, mas eu não entendi nada. Mamãe é sempre tão gentil; ela diz que a gentileza faz o mundo ficar melhor. Papai retruca dizendo que nem todo mundo merece gentilezas. Eu decidi escrever esta carta como uma gentileza. Hoje está bastante frio, chovendo durante a manhã e a tarde. Ainda não é noite, então não sei dizer se vai continuar chovendo. Papai disse que preciso estar na cama às 21h. Reclamei, porque quero ver um filme na televisão. Ele me respondeu que, quando eu não tiver mais dentes de leite, poderei decidir a hora de ir para a cama. Fico fazendo planos para quando...

O ensaio da despedida

Eu estava no metrô e veio à minha cabeça a frase:  “ensaio da despedida” . Não sei se é de algo que ouvi, li ou alguém comentou, mas achei bonito. E comecei a pensar nas despedidas, porque esse tem sido um tema que me vem à mente de forma recorrente, desde que meu irmão fez sua passagem há quase dois anos.  Se despedir dói. Pensei em tantas outras formas de despedida, refleti sobre o amor, sobre amores. Existir é plural e amar também, mas não estou falando de poliamor; estou falando de mim, da minha história e de todos os amores que compõem e compuseram meus caminhos. Das amizades que acabaram – e algumas realmente acabam; dos fracassos amorosos que começaram de um jeito e terminaram da forma mais evidente, tendo diagnósticos de tempos líquidos que vão de  love bombing  a  gaslighting . Talvez americanizar esse tipo de coisa deixe o trauma menos denso, ou simplesmente mais aceitável. Mas o ensaio da despedida é algo que perpassa o calendário, porque às vezes voc...

Chorar incomoda a quem?

Em alguns dias penso que nunca mais escreverei, e já em outros penso tanto, falo tanto, sinto tanto, que eu percebo as palavras correndo de forma solta por todo o meu corpo. Porque eu não choro, e quando choro, desabo. Vai fundo o meu choro. Minha relação com a lágrima sempre foi algo muito cuidadoso, porque em casa, sempre ouvi que eu chorava demais quando criança. E isso incomodava, e eu fui crescendo com esse medo de incomodar. Quando minha avó materna faleceu, lembro que não consegui chorar no dia, no velório e no enterro. Fiquei entalado. Nasci na casa dela, na cama dela. Ela era amorosa demais comigo, mas sempre me alertava sobre o meu choro. E apenas alguns anos depois consegui, de fato, chorar de saudade, de falta. Consegui viver o vazio que era o luto daquela perda que me pedia para não chorar. Quanto mais a gente cresce, mais a gente toma espaço no mundo. Os ossos alargam, a voz muda, os pelos crescem, caem e voltam a crescer mais uma vez. São tantos ciclos. A gente fica meio...