O que eu aprendi com as abelhas solitárias
Esses dias ouvi falar sobre as abelhas solitárias e achei esse contexto muito interessante. São abelhas que, de alguma forma, se afastam de seu grupo e, mesmo assim, continuam sendo abelhas. Elas são muito importantes no processo de polinização das flores.
Esse contexto me levou a outros lugares e me fez lembrar de quando saí da igreja, em 2019. Porque ali eu era parte de uma comunidade, eu fazia parte de um grupo, ou pelo menos acreditava que fazia. Lembro que a maioria dos garotos da igreja não se aproximava de mim e que, quando estavam em uma rodinha conversando e eu me aproximava, eles saíam.
Eu não entendia muito bem o motivo disso acontecer, mas hoje entendo que o meu jeito era o motivo dessas hostilidades.
Eu ouvia piadas, percebia olhares maldosos e, mesmo sem dar muito motivo, acabava fazendo parte de contextos em que o meu nome era citado:
“E o Almir, hein? Tem um jeitinho, né?”
Piadas maldosas, comentários de duplo sentido e várias agressões psicológicas.
Minha voz mansa, o gosto pela literatura, as mãos acompanhando meu momento de fala e, sobretudo, minhas amizades femininas acabavam sendo o decreto da minha sexualidade, antes mesmo de eu viver qualquer coisa.
Porque, mesmo sendo útil para várias demandas da comunidade, pagando obrigatoriamente o dízimo e evitando qualquer tipo de contexto que gerasse uma história com o meu nome, isso acabou acontecendo.
Em 2019, sair da igreja foi um processo de libertação muito importante. E não somente porque beijei homens, mulheres e quem quis beijar, mas porque eu não tinha mais um jugo moralista pesando sobre a minha mente.
Ouvir falar das abelhas solitárias me fez lembrar daquele momento em que minha referência de comunidade se desfez e eu precisei entender que, às vezes, para ser grande, é preciso ser só.
Andei por outros países e lugares e aprendi muito sobre mim depois disso tudo.
Tenho muitos traumas e lembranças ruins, mas sou muito orgulhoso do homem que me tornei. Ser alguém bom não depende de religião. Afinal, religião só serve para quem acredita nela.
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