O ensaio da despedida

Eu estava no metrô e veio à minha cabeça a frase: “ensaio da despedida”. Não sei se é de algo que ouvi, li ou alguém comentou, mas achei bonito. E comecei a pensar nas despedidas, porque esse tem sido um tema que me vem à mente de forma recorrente, desde que meu irmão fez sua passagem há quase dois anos. Se despedir dói.

Pensei em tantas outras formas de despedida, refleti sobre o amor, sobre amores. Existir é plural e amar também, mas não estou falando de poliamor; estou falando de mim, da minha história e de todos os amores que compõem e compuseram meus caminhos.

Das amizades que acabaram – e algumas realmente acabam; dos fracassos amorosos que começaram de um jeito e terminaram da forma mais evidente, tendo diagnósticos de tempos líquidos que vão de love bombing a gaslighting. Talvez americanizar esse tipo de coisa deixe o trauma menos denso, ou simplesmente mais aceitável.

Mas o ensaio da despedida é algo que perpassa o calendário, porque às vezes você não se despede de alguém, mas sim do sentimento que habitava no peito. E, se não existe mágoa bastante, em algum momento uma lembrança pode trazer saudade. Saudade do que já passou ou do que desejamos que poderia ter sido. Não há uma resposta certa sobre isso.

Eu já idealizei muita coisa, e nos últimos anos tenho sido muito prático e realista com o que sinto, apesar de às vezes insistir em questionar meu ponto de vista, porque a vida real é mais pesada do que as palavras de chumbo que uma poesia pode descrever. O amor poético pode ser parnasiano: tem medida e acaba bem. Entretanto, existir é mistério. E, entendendo isso, cabe a nós sabermos que o controle da vida, das ações alheias e das feridas que não curamos está fora de nossas mãos.

E mesmo a gente seguindo de forma honesta, nem sempre a vida nos trata com um afago. E a falta de afago da vida vai fazendo com que a gente embruteça. Não na forma literal da ignorância, mas na fé. E não estou falando da fé religiosa, mas da fé nas coisas, pessoas e situações. Na maioria das vezes, surge um pessimista que se adjetiva apenas como realista, mas, na real, se trata de alguém que amargou. E às vezes a vida faz a gente amargar.

E isso faz parte desse ensaio, desse teatro, e também do último ato, aquele que a gente nunca sabe quando será.

Silêncio. Aplausos. Algumas lágrimas. Alguns sorrisos. O ensaio acabou.

Um abraço,
Almir Santana

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