Coisas de mar e adeus entre sala e o quarto

Levantei cedo, antes do sol. Sonhei com o mar; no sonho, fitei algo bem distante. Era o meu último dia ali. Parecia que eu estava me despedindo, que algo soava um pouco triste.

Se eu pudesse escrever uma carta de adeus, eu deixaria escrito nela aquilo que não importa muito a ninguém, mas que me deixou minimamente realizado. Não seria uma carta de desabafo ou reflexão cansada. Eu falaria dos dias bonitos, do barulho do mar, dos dias em que eu me senti muito feliz, das poesias que eu escrevi, mesmo sem destino. Eu contaria das vezes em que me perdi em São Paulo, em Melbourne e em Dublin. Mas já me perdi em João Pessoa também, mesmo a cidade sendo meu lar. Tem dias que me perco entre a sala e o quarto.

Algo meu fica pela casa, e não é por desatenção. Desde sempre sou assim. Eu costumava falar muito, rir demais, ter uma energia muito grande, mas algo me ocorreu. Foi drástico, doloroso e ainda me persegue. É como uma grande sombra que me engole. Existem momentos em que sou tomado por lembranças e pensamentos que me fazem esquecer quem já fui. Na rua, meus amigos não me reconhecem mais; meu rosto mudou de forma. Me distanciei demais de todos para que saibam quem sou agora.

Minha voz enfraqueceu, meus cabelos se foram e a barba está embranquecendo. O tempo andou passando navalhas finas em meu rosto. Depois dos trinta anos, tudo vai ficando desconfortável e a gente segue expandindo. Não existem tantos amigos para encontrar, o telefone toca muito pouco, sair de casa se torna uma missão homérica. É preciso derrubar gigantes, monstros marinhos e ficar indiferente a tudo isso.

Envelhecer enche a gente de um silêncio, mas também de muito a se dizer. Tenho conselhos sobre finanças, causas amorosas, saúde e carreira. O tempo é um aliado em nos ensinar a aconselhar, mas o preço disso é o cansaço de existir expandindo. A visão vai turvando e, ainda assim, conseguimos ver mais.

Quando eu tinha vinte anos, a angústia me tirava o sono. Hoje me dói o estômago, e tem dias que acaba doendo mais algum lugar, mas não recordo muito bem. Tratei de esquecer algumas dores, porque em alguns dias tudo me dói. E não há remédio que me cure.

Não há cura para a dor que a vida faz a gente sentir após uma grande dor.

Por Almir Santana


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