Depois da lápide
Em junho, tia Marizete partiu. Já não tínhamos tanto contato como antes, pelos distanciamentos naturais que a vida impõe, mas eu guardo muitas boas lembranças dela.
E, quando a morte chega, desde que perdi meu irmão caçula, em 2023, é como se eu revivesse um pouco daquela dor. Sempre que sei que alguém se foi, reencontro aquele mesmo vazio. Me deparo com uma parte de mim que não sabe se comunicar com o mundo.
Entendo que se trata de um vazio que nos empurra para uma espécie de apatia. Porque, depois que você ouve que precisa ser forte, seguir em frente e continuar vivendo, no fim das contas, você está sozinho. No começo, chegam muitas palavras de conforto, mas há uma dor que não consegue acolhê-las. Entretanto, o luto, em sua essência, é uma travessia solitária. Penso no luto como um vasto chão sem direção.
Nos últimos anos, meu ciclo de amigos tem diminuído. Não porque eu tenha deixado de gostar das pessoas que amo, mas porque a vida é assim. Aos poucos, vamos nos recolhendo às nossas rotinas, às nossas dores e aos nossos sentimentos. O corpo pede repouso, quietude. Silêncio. Solidão que traz paz.
Hoje, respeito muito o que sinto. Aprendi que não preciso apressar a dor, nem escondê-la para parecer forte. Porque, nessa caminhada, por mais que exista o carinho de quem está ao nosso lado, há um lugar dentro de nós que só nós mesmos conseguimos viver.
Assim, os anos vão passando, o rosto muda, o sorriso encurta. A vida vai encruando. A gente vai seguindo mais sozinho e lidando com o desespero de existir, assim como dizia Hilda Hilst, a grande poetisa.
Por Almir Santana
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