Amor, me oferece uma música da Angela Ro Ro.
As emoções estão cada vez menores, e para isso se faz necessária a existência de pequenos espaços. Mas naquele apartamento deve caber muita coisa. De longe, sempre observo o trabalho rotineiro de fechar e abrir cortinas. Desde sempre, reparo nela. Na verdade, gosto de reparar no mundo, em tudo à minha volta: em pessoas, em seus narizes, bocas e pés. Não é nada além de curiosidade, porque, na minha idade, o muito olhar pode ser interpretado como desejo, mas só tenho curiosidade mesmo.
E, se tem alguém perto de mim, trato de imaginar se aquela pessoa é feliz, se ela ama, se ela tem uma mulher, um homem ou um bicho que a queira bem. A mulher do segundo andar, pouco vi acompanhada. E, mesmo não sendo de minha conta, por meus atributos de observador do alheio, forma eufemista a quem se dá a fofoca, sempre pensei: coitada, vive só.
Mas ela não tinha um semblante triste. Vivia a tocar músicas em casa e poucas vezes recebia uma amiga. Uma senhora tão senhora quanto ela, com cabelos grisalhos, ondulados, olhos destacados com lápis preto e sempre usando muitos anéis e colares com pedras. Ela me parecia uma esotérica sensitiva.
Ambas eram seres intrigantes em minha mente, porque, da minha janela, eu reparava em tudo, mas pouco saía devido à cama ser meu lugar no mundo. Havia uma música tocada com frequência naquele apartamento, e lá sempre falava:
"Atrás desse rostinho, eu tenho um fogo angelical
Por dentro do vestido, eu guardo um corpo infernal"
Era uma voz rouca, grave, doce. Descobri que quem cantava era Angela Ro Ro e, nisso, passei a ter mais curiosidade sobre as músicas dela. Ganhei um LP de minha mãe; o álbum chama-se Escândalo. E acho que amar faz um pouco de barulho.
Esses dias, enquanto eu ouvia meu LP, alguém falou alto:
"Amor, me oferece uma música da Angela Ro Ro."
E, mesmo eu passando pela vida entendendo que não estou apto a amores, me sinto tão feliz com essas músicas, com a vizinha que mal sabe que existo, mas que, por conta dela e de sua amiga, passei a ouvir essa cantora sem igual. Acho que amar é oferecer uma música.
E, se eu amar um dia, vou oferecer as músicas de Angela Ro Ro a alguém.
Por Almir Santana
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