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Eu lhe amaria com a intensidade de dez sóis de Recife

A gente se conheceu entre as esquinas de Recife, eu tava ali andando manso e perdido nos meus pensamentos. Era sábado de manhã, e eu geralmente não espero muita coisa logo cedo. Sei que para alguns é dia santo, já para outros, somente mais um dia. E para mim, tudo é implícito. Não gosto e não deixo de gostar, vou vivendo. E nessa de viver, te encontrei, era um dia quente. E para quem não sabe, Recife é uma cidade de Pernambuco, que tá ali no nordeste fazendo carnaval, arte e enchendo os meus olhos. É quente, é muito quente. Mas é gostoso sentir o sol queimando, a maresia próxima, o sotaque; tudo chama um pouco. Minha avó era de lá. E eu acho que sou um pouco também, apesar de ser paraibano. No final, a gente acaba sendo um pouco de cada lugar em que passamos. E eu vivi lá, mesmo que de passagem.  E foi assim de passagem que entrasse no meu coração, depois que entrasse em meus olhos. Te vi, reparei, nos reparamos. Na minha cabeça, parece que Geraldo Azevedo cantava Dona da Minha Cab...

Parafraseando Drummond

Eu sei que tenho feito certas pausas, e que voltando sempre me justifico. Por isso, saibam que de tempos em tempos escrever se torna algo que eu não gosto de fazer. Porque quando escrevo, mostro tudo de mim, e isso é coisa de alma. E penso que às vezes, a alma emudece. E a interpretação alheia pode ser muito imprecisa sobre o que sentimos e quem somos.  E eu tenho falado muito nos últimos tempos, mas não necessariamente o que eu gostaria. Porque, até mesmo quando eu falo, algo em mim não se esgota. Há anos, li em algum livro onde o personagem dizia que nem com palavras, algumas dores não estancam. E parafraseando Drummond, meu bem, essa ferida as vezes sara amanhã, as vezes sara nunca.  Esse ano, completei 33 anos, e em alguns dias, pensei absurdamente em meus erros e acertos. Me arrependi profundamente de tantas coisas. Porque, infelizmente, fazemos escolhas, e elas permeiam parte da gente ou de tudo o que temos. É um ralo que leva tudo, e em alguns casos pode ser tempo, dinh...

O que você entende por autonomia afetiva?

Desde criança, a gente vai crescendo com um ideal sobre como é se relacionar; e também, a projeção de com quem se relacionar. É uma ideia normativa que está entre o parâmetro mínimo familiar da família que temos e dos casais da novela das oito que sofrem para um caralho, mas estão juntos no último capítulo. Tudo acaba sendo construído em um ideal da fantasia que após sofrer demais, a recompensa vem. É um sentimento cristão que permeia um campo perfeccionista. Cansei dele. Além disso, existe a expectativa do primeiro beijo, da primeira transa, do primeiro namorado ou namorada. Das descobertas do corpo, dos desejos. Das contradições entre desejos e as moralidades religiosas que nos permeiam. Essa descrição para alguns é uma memória longínqua, porque, essa inicialização é adolescente.  Mas muito disso, vai estar presente em nossas vidas por muitos anos. Só que quanto mais velho, mais frustrado ou mais certo do que você quer, você estará. Mas até lá, a gente vai caminhar por muitos cam...

Eu desejo que a vida te afague

Em alguns momentos penso em discutir sobre a realidade, mas a realidade demasiada me fadiga. E em minha mente, crio uma atmosfera apenas minha, onde vivo meus desejos mais insanos. É engraçado classificar a vontade de se viver plenamente como ponto de insanidade. Sempre ouvi de muita gente que eu sou maluco, meio doido, sem juízo, porque eu sempre fui expansivo, falante demais, e sobre tudo, com humor duvidoso que faz com quem tá por perto dar risada ou ficar desacreditado do pequeno absurdo que eu falei. É uma vibe tio do pavê e sitcom de baixa audiência. Nunca pensei nessa descrição, mas gostei dela e achei que faz bastante sentido. Hoje, tento não me reprimir mais, porque nunca fui um homem que transborda macheza. Eu não gosto de futebol, nunca cocei o saco e cuspi no chão em seguida. Isso pode parecer caricato, mas acho que os ideais da sociedade perpassam esses rascunhos caricatos. Que no final, demonstram que é um processo pesaroso a gente ser quem é. Porque vão questionar sua se...

Para que matar o amor romântico?

A estrutura social apresenta uma série de receitas sobre como deve ser o amor romântico, e também de como essa trajetória deve seguir. É tudo muito clichê e cheio de mesmice. Mesmo assim, isso não deixa de ser cativante. O amor cativa, a paixão castiga e o tesão faz com que a gente lembre que existem muitos desejos a serem desbravados.  O romantismo não é um problema, ele está presente em filmes, livros, músicas e dentro da gente. Esse sentimento é gostoso, e eu não acho nenhum pouco piegas se permitir sentir, desde que exista reciprocidade dentro da história que você está vivenciando. Indiferente se homens ou mulheres, todo mundo em algum momento da vida precisa se permitir a cafonice ou a emoção. É errado ser emocionado? Essa questão é problemática, porque cada pessoa é um mundo. E no final, a gente só tem que garantir que não está perdendo tempo massageando ego alheio.  Nos últimos anos ouvi algumas vezes que eu deveria desmistificar a idealização do amor romântico, e eu te...

Carta aberta para todos aqueles que acreditam que o amor é um bom sentimento

Essa é uma carta aberta para todos aqueles que acreditam que o amor é um bom sentimento, e que apesar de algumas dores e caminhos íngremes, ele pode acontecer. Talvez possa acontecer da maneira mais romântica para alguns e de uma forma mais prática para outros. Tem gente que conhece seu grande amor no carnaval e tem gente que se apaixona através do Tinder. Sempre acreditei que o amor fosse ser um acontecimento em minha vida, aquele tipo de acontecimento merecedor de um feriado nacional, trilha sonora e esquecimento da realidade. Coisa de libriano com lua em peixes? Não sei, mas minha mãe pisciana criou um grande emocionado. Isso parece um desafio, né? No geral, sim. E a resposta não se faz devido aos homens e mulheres que quis amar. É mais profundo. Toda vez que eu quis amar, acabei deixando muito de mim no outro, depois fiquei vazio. Meio sem graça, sem muita fé ou expectativa para outros relacionamentos. Então, após uma decepção, eu sempre gostei de criar meu hiato pessoal, trazendo ...

Conversa com Freud

Eu estava em um barzinho desses que nada é muito caro, então, entre um drink e outro, um senhor sentou ao meu lado. Puxou assunto e disse que estava escrevendo um livro. E que buscava histórias de anônimos que quisessem estar no livro. Conversamos, tomamos mais uns drinks. Eu não sabia se valeria falar da minha história ou reviver dores, mas decidi contar. Falei sobre alguém que amei muito, mas que decidiu ir embora. Ele pediu detalhes e penso que o leitor também espera por eles. Vamos lá!  Era janeiro de algum ano. E janeiro é um mês de pensar em como será o desenrolar do ano. Planejei algumas coisas, menos me apaixonar. Nos conhecemos através de uma rede social, coisa comum para quem vive nos anos 2000. Um tempo depois estávamos nos falando diariamente. Nos conhecemos pessoalmente, depois quis me esquivar, mas não consegui. Percebi que poderia perder alguém especial. Três meses depois estávamos namorando, planejando passeios pela cidade e certo de viagens a curto prazo. Entretant...