Eu lhe amaria com a intensidade de dez sóis de Recife

A gente se conheceu entre as esquinas de Recife, eu tava ali andando manso e perdido nos meus pensamentos. Era sábado de manhã, e eu geralmente não espero muita coisa logo cedo. Sei que para alguns é dia santo, já para outros, somente mais um dia. E para mim, tudo é implícito. Não gosto e não deixo de gostar, vou vivendo.

E nessa de viver, te encontrei, era um dia quente. E para quem não sabe, Recife é uma cidade de Pernambuco, que tá ali no nordeste fazendo carnaval, arte e enchendo os meus olhos. É quente, é muito quente. Mas é gostoso sentir o sol queimando, a maresia próxima, o sotaque; tudo chama um pouco. Minha avó era de lá. E eu acho que sou um pouco também, apesar de ser paraibano. No final, a gente acaba sendo um pouco de cada lugar em que passamos. E eu vivi lá, mesmo que de passagem. 

E foi assim de passagem que entrasse no meu coração, depois que entrasse em meus olhos. Te vi, reparei, nos reparamos. Na minha cabeça, parece que Geraldo Azevedo cantava Dona da Minha Cabeça. Eu ouvia ele, mesmo sem rádio tocando, porque ali tudo fazia sentido, uma música paralela, uma desconhecida e um amor que eu lhe devotaria no dia branco ou em qualquer outro. 

Tua boca rosada, cabelo cacheado grande, teu sorriso límpido, tua pele preta que brilhava com a luz do sol, e aquele vestido amarelo foi tudo o que eu vi de mais lindo naquela cidade. Não parecia alguém daqui, digo, dessa existência terrena. Não sei se Óxum ou Janaina, porque de fato parecia um ser de água. Uma sereia. Não sei lhe dizer, só sei que assim pensei na hora. 

Sorrisse para mim, eu sorri de volta. E depois nos perdemos na multidão, ali no centro. Voltei  outros sábados, voltei outros horários e nunca mais te avistei. Lhe escrevi música, poesia e tantos pensamentos que não sei contar. Decidi te amar, mesmo não sabendo nada de ti, e também inventando em mim essa história cheia de fantasia.

Preciso contar um segredo, naquele dia eu acordei desejoso de amar. E eu lhe amaria com a intensidade de dez sóis de Recife, lhe puxaria entre abraços com a força das ondas embalando quem quer nadar, e seria teu descanso na rede depois de um dia bem muito cansativo. Eu lhe seria caminho para tu andar, e bandeira do teu país, caso tu não tivesse uma. Seria teu carnaval, mesmo a gente estando em outubro. 

A gente seria tanta coisa, se tu existisse. 

Por Almir Santana 


 

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