Conversa com Freud
Eu estava em um barzinho desses que nada é muito caro, então, entre um drink e outro, um senhor sentou ao meu lado. Puxou assunto e disse que estava escrevendo um livro. E que buscava histórias de anônimos que quisessem estar no livro. Conversamos, tomamos mais uns drinks. Eu não sabia se valeria falar da minha história ou reviver dores, mas decidi contar. Falei sobre alguém que amei muito, mas que decidiu ir embora. Ele pediu detalhes e penso que o leitor também espera por eles. Vamos lá!
Era janeiro de algum ano. E janeiro é um mês de pensar em como será o desenrolar do ano. Planejei algumas coisas, menos me apaixonar. Nos conhecemos através de uma rede social, coisa comum para quem vive nos anos 2000. Um tempo depois estávamos nos falando diariamente. Nos conhecemos pessoalmente, depois quis me esquivar, mas não consegui. Percebi que poderia perder alguém especial. Três meses depois estávamos namorando, planejando passeios pela cidade e certo de viagens a curto prazo. Entretanto, em alguns casos a convivência corrompe a delicadeza.
Por isso, demonstrações de afeto, palavras, músicas e versos acabam perdendo espaço para a indiferença. Foi assim com a gente! Eu amava, amava muito. Mas era apenas gostado, pelo menos era isso que ouvia. Na verdade, tempos depois ouvi que não havia mais certeza sobre esse gostar. Dúvida não cabe em afeto, a gente sente ou não sente. Foi doloroso perceber que não havia mais desejo da outra parte, e que as vontades se restringiam a mim. Me senti culpado, pensei que talvez meu jeito impulsivo e desconfiado poderiam ter feito isso, mas com o tempo entendi que estava ficando sozinho aos poucos.
E que minha vontade de conversar, resolver ou entender o que poderia ser melhoria não eram válidas, porque isso não era recíproco. Dormíamos na mesma cama, almoçávamos na mesma mesa, mas já não nos tínhamos. Eu estava preso em recordações de um passado recente na esperança de tudo voltar a ser como foi. E também certo de aqueles olhos já não reparavam mais em mim e sem saber por onde eles vagavam. Assim foi minha história. Depois de me ouvir, ele disse que era pra eu ir em seu consultório. E que essa história era profunda demais para terminarmos ali. Ele me deu um cartão e foi embora. No papel estava escrito Freud e um endereço curto. Irei lá na terça-feira.
Adorei o pensar "em alguns casos a convivência corrompe a delicadeza". Não consigo concordar com a ideia de que "dúvida não cabe em afeto". Se o velhinho me perguntasse eu diria que já houve tempo em que eu sabia sentir uma série de afetos paralelos, sem que houvesse ordem de grandeza. Que o teu afeto me afetou é fato, agora faça me o favor, diria a canção. Mas o texto não está pedindo que eu concorde, ele apenas é. E, assim sendo, espero que a visita da terça apareça aqui.
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