Como lidar com a falta? (de amor)
Ando pensando sobre a finalidade do amor e não cheguei a uma resposta, mas me veio à mente uma pergunta: onde estou procurando o amor? Porque, no final das contas, a troca sentimental mira, mesmo que de forma inconsciente, no amor. No desejo de acolhimento e pertencimento a uma história, ainda que ela exista apenas em nossas cabeças. Isso não quer dizer que, após o primeiro date, isso vai acontecer de forma mágica, como nos filmes. Acorda, Alice!
Nunca consegui pensar em meus afetos com pré-requisitos que se assemelham a entrevistas de emprego ou à triagem para agência de modelo. Digo, sabe aquelas questões: precisa ter tal altura, precisa ter grana, precisa disso ou daquilo. Isso não me brilha os olhos, porque eu entendo que minhas necessidades quem banca sou eu. Sempre pensei mais em como eu me sentiria sobre tesão, curiosidade e felicidade, compartilhando a vida com a pessoa com quem me conectei. E que esse lado bom faria diferença, mesmo quando chegasse o lado ruim. Afinal, se relacionar pode ser experienciar do gosto ao desgosto.
Hoje, com 33 anos, fica mais claro o que me é inegociável quando penso na permanência de alguém em minha vida. Porque, para além de uma representação social, o amor precisa se valer de admiração, respeito, acolhimento e verdade. E não menos importante, jogo limpo. Conversa aberta, porque, no final das contas, temos nossas vulnerabilidades. E isso não aparecerá em uma foto do Instagram. É mais profundo, quase pouco perceptível.
Dentro das experiências que vivi, passei por um relacionamento muito ruim, onde eu tentei ser gostado minimamente. E depois de um tempo, entendi que aquela pessoa se manteve em minha vida porque eu fui necessário. Não foi por amor, porque do outro lado, tratava-se apenas de uma oportunidade para novas vivências. E todo esse ciclo doloroso acabou virando uma bola de neve de dependência emocional, que fez com que o ciúme, a insegurança e os traumas se tornassem um gancho que me tirou do eixo. Me apagou, porém, eu sufoquei um espaço que não deveria ocupar desde o começo.
Chorei muito e fiquei muito tempo caminhando com um afeto ressentido, com uma mágoa que me consumia e com uma indignação que, de certa forma, ainda está aqui. Mas hoje, não é a rejeição que me deixa triste, porque ninguém é obrigado a gostar de ninguém. E antes de qualquer relacionamento, existimos primeiro. Hilda Hilst (poetisa) disse uma vez que existir é desesperador, e acho que esse desespero se dá quando temos que lidar com nossos demônios. Olhar para nossas culpas, resolvê-las, e também entender o que deixamos que alguém fizesse com quem somos.
E isso é um desafio, porque as relações trazem questões narcisistas, umas mais acentuadas e outras menos. Mas a gente acaba amando mais por uma falta nossa do que do outro. Nietzsche tem um aforismo que fala de rompimentos, e ele diz que sofre mais quem mais amou, porque depois do fim, você coloca tudo em uma balança, e nem sempre os pesos estarão justos.
Na época em que eu estava muito decepcionado por uma série de situações que estava vivendo e não sabia lidar, meu terapeuta me disse: "Almir, você precisa parar de procurar amor no chorume! Não é lá que você vai encontrar o que precisa." Demorei para aceitar isso e entender que me coloquei em situações, em lugares e com pessoas que não estavam disponíveis para o que eu precisava.
Honestamente, passei muito temo tentando sintonizar algo que não dependia somente de mim, e hoje eu escrevo para me lembrar o quanto sou valoroso e para que esse texto chegue a alguém que necessita se curar, assim como eu precisei um dia. Porque a cura acontece, mesmo não sendo fácil. E no fim, a parte mais difícil será se perdoar.
Espero que se perdoe.
Um abraço,
Almir
Comentários
Postar um comentário