A primeira crônica de 2022 para Ana e Paulo

Ana andava cansada de tudo. O ano anterior havia sido dolorido demais, pesado por uma série de motivos. Então, decidiu deixar sua cidade. Anápolis já não cabia mais nada de si. Ela precisava expandir. Chegou em São Paulo e fez morada entre o cinza da cidade.

Voltou a escrever poesias mesmo errando algumas conjunções, vírgulas e afetos. 2022 chegou, e ela conheceu Paulo na internet de forma despretensiosa. Pense em um rapaz bonito, alto, com um sorriso largo, olho rasgado e uma docilidade nas palavras. Ana estava embrutecida. Calejada por ter vivido curtas tragédias sentimentais. Por isso, havia decretado um hiato eterno para afetividades.

Vamos usar o termo eterno para fingirmos que se tratava de uma decisão irrevogável, mas na verdade, ela só queria dias de sossego. Mas Paulo havia cismado com Ana. E isso acontecia, porque algum ritmo em comum havia feito com que aquele encontro acontecesse. 

No final de janeiro, se encontraram na casa da Ana. Para um primeiro encontro, já havia muita intimidade e vontade, apesar de todo medo que devorava aquela mulher que recordou o que era ser desejada. Ele fazia gracejos, cantadas que a faziam sorrir. Queria estar mais próximo. Então, tomada pelo medo, Ana decidiu se distanciar. Fugir. 

Afinal, nem sempre um coração cansado de sofrer entende quando encontra outro coração também cansado de sofrer. Porque, quando isso acontece, é preciso pensar que o amor pode chegar. E os bons afetos acontecem apenas quando nos permitimos. 

Então, percebendo a ausência da Ana, ele decidiu seguir seu rumo. Distrair suas vontades. Mas para o lugar de ausência, cabe saudade e comportamentos tolos. Quando Ana percebeu isso, ficou aborrecida, porque não estava sabendo lidar consigo e a situação. 

Era uma segunda-feira assim como tantas outras, mas, aconteceu uma ligação que não resolveu a situação. Entretanto, Ana o chamou para uma conversa após o trabalho. Ele veio, Ana o abraçou. Ele falaram amenidades, falaram de suas questões. Se beijaram, foram apenas um durante aquela noite. E também para os outros dias que hão de vir. 

Como diz Hilda Hilst: "Os sentimentos vastos não precisam de nome." Ana e Paulo entendem que precisam de alguns ajustes, mas o tempo e a vontade de ambos fará com que tudo flua de uma forma melhor, porque lidar com o vasto, não é fácil, mas é recompensador. 

Dedico essa crônica à todos que se encontram entre os descaminhos da vida.

Um cheiro, Almir

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