O que você sabe sobre a favela?
Há alguns meses ouvi uma história que me dá náuseas só de lembrar. Uma amiga comentou que na escola particular em que ela estagiava, alunos do sexto ano levantaram uma pauta: a favela. As crianças começaram a falar sobre suas percepções e o que haviam ouvido em casa:
- Favela só tem bandido e gente perigosa!
- Meu pai disse que na favela o povo morre porque só faz
maldade.
- Na favela todo mundo passa fome.
E a estagiária que estava com a turma naquele período começou a explicar a
dinâmica da favela, e que não se tratava apenas de um espaço com criminosos. O
problema é que alguns pais fizeram contato com a escola no dia seguinte, porque
esse assunto não era pauta para se tratar com crianças. Ainda mais sobre
favela, imagina se elas acabam seguindo alguma influência de lá, né?
Estamos falando de 2019 e de uma escola tradicional, onde
seu público tem dinheiro e é majoritariamente branco. Reforço esse ponto,
porque a favela tem cor e nela a cor é alvo.
Quando eu era aprendiz em um importante banco, uma colega
sempre dizia que a mesa dela parecia uma favela. E eu ficava todo sem jeito,
porque eu sabia de onde eu vinha. E que a favela não é apenas desordem e
bagunça.
A favela possui um recorte de pobreza, criminalidade e apagamento
social. Mas nela, existe arte, gente que acorda cedinho para trabalhar no
centro da cidade, apenas para que o pão esteja quentinho na mesa de uma família
que acha que a favela não é assunto a ser lembrado.
Morar no Campo Limpo ou Capão Redondo implica em uma série
de fatores: a frota de ônibus que foi reduzida nos últimos anos é menor ainda
aos domingos, então muita gente vai permanecer em casa ou nos arredores. É
importante refletirmos que alguns espaços urbanos são pensados para públicos específicos,
e geralmente, quem está a margem tende a ser ainda mais afastado. É um processo urbano muito bem pensado!
Quero ressaltar algumas problemáticas do lugar que conheço
muito bem: o Campo Limpo! Todos os dias, geralmente antes das 21h a água acaba. Você me
responde: é só colocar caixa de água. Mas infelizmente, nem todas as casas
possuem estrutura para isso. Entre vielas e casas amontoadas, pessoas do
passado queriam apenas um lugar para residirem. O acesso a cobertura de
internet é deficitário, e na maioria dos bairros não chega à fibra ótica e a conexão
geralmente é muito limitada. Para que investir nesses espaços se quem paga pelo
mesmo serviço em outras regiões consegue utilizar o serviço sem problemas, né?
A abordagem policial é truculenta e com zero respeito a
dignidade das pessoas. Todos os meus amigos já sofreram algum tipo de abuso
policial; agora não trago dados estáticos, escrevo pensando em relatos que
ouvi. Afinal, é como um tenente da PM
falou na mídia certa vez: a abordagem policial precisa ser diferente nos Jardins
e na favela. Essa fala reforça o que é veiculado na mídia: o branco dos Jardins
é suspeito nas manchetes, entretanto, o preto e favelado é criminoso.
A linguagem é um traço que demarca espaços sociais, e a
favela é sentenciada a um afastamento. Ela é marginalizada mesmo sem que ao
menos a conheçam. E quem nasce, cresce e vive nela é estimulado a não ter consciência
de pertencimento, porque na escola o conselho era o seguinte: no currículo indique
que mora em Santo Amaro, porque Campo Limpo e Capão Redondo não pegam bem para
o currículo.
Almir, por que você começou o texto com uma pergunta e
acabou trazendo pontos tão problemáticos ao decorrer desse texto? Fiz isso porque a
vida na favela é cheia de limitações, mas o povo que faz parte dela é parte da
sociedade, fora de período eleitoral. A favela não é apenas mão de obra, ela
cria, e aqui existe muita força para movimentar a economia. É importante entendermos que da favela, pode sair uma filosofa,
uma acadêmica, um advogado e um escritor. O perigo não está na favela, ele está
na cidade. Sabemos que o Estado e a PM são as mãos que punem a favela, mesmo quando
não há necessidade. Entretanto, da ponte para cá a vida acontece, mesmo com
todas as dificuldades.
Por isso, se você não conhece a favela, busque conhecer, mas
não utilizando programas sensacionalistas ou manchetes que utilizam paleta de
cores quando vão noticiar algo. Tenha como referência algumas instituições,
como por exemplo, Observatório das Favelas e gente que escreve sobre suas
vivências.
É isso, valeu!
Comentários
Postar um comentário