Carta aberta sobre o Brasil de 2021
Sei que a ideia é que exista recorrência de textos no blog, e eu abraço essa necessidade. Entretanto, o mundo anda denso, e eu ando digerindo tudo em um tempo mais lento. Leituras com maior pausa, textos com liberdade para acontecer, e um dia de cada vez.
Gostaria de falar sobre tantas coisas!
Descrever o movimento mundial contra estatuas ao redor do mundo, e compartilhar que o simbolismo histórico ligado a morte, genocídio e exploração de povos originários estão sendo combatidos. E isso me dá uma curta esperança de que esses símbolos sejam retirados da sociedade em um futuro em que pessoas não sejam presas, indiciadas por vandalismo e marginalizadas.
Ou fazer uma análise sobre como o mercado se aproveita de causas sociais, como o mês do orgulho LGBTQIA+ para fazer representação, ignorando fatores que constroem representatividade. Minha fala não é generalista, mas observar o mercado de trabalho e as demandas sociais colocadas como produto, não fortalecem a causa no combate ao que torna pessoas gays vulneráveis em uma sociedade onde a cada 23 horas, alguém é assassinado no Brasil por ser homossexual.
Descrever que a luta contra o racismo não é um post com uma hastag! É um ponto que pede atenção, porque estamos falando de um problema estrutural que mata crianças, homens e mulheres pretas na porta de casa. E famílias em carros de passeio. Se você não recorda, foram 80 tiros.
Citar o caos que a Amazônia vive desde o golpe de 2016, tendo intensificações com o governo Bolsonaro é um caminho que envolve muitos dados e fatos. Os povos indígenas mais uma vez tiveram seus espaços invadidos por um política que não os atende.
E sem falar nos órgãos de controle ambiental que tiveram suas pesquisas contestadas, pelo simples motivo de termos um governo que se articulou para "deixar passar a boiada", enquanto pessoas morriam em meio a uma das maiores crises sanitárias que ainda estamos vivendo.
"Passar a boiada" foi um termo usado pelo ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Sales, onde ele claramente disse que enquanto o foco fosse a pandemia, muita coisa poderia ser feita em favorecimento do agronegócio.
Pensei em falar das recusas de compra para uma vacina que já existe, devido a um esquema de desvio de dinheiro do governo federal. E por conta disso, vidas foram perdidas pelos interesses de homens que falam de Deus, família e pátria.
E eu poderia mergulhar em cada assunto desse, mas no final, eu estaria apenas falando do Brasil.
Hoje, 26/07/2021, chegamos a 550 mil mortes devido a Covid-19. Estamos em um sistema onde causas se tornam produto, fé se tornou produto de prospecção financeira em grandes templos, sendo que nas favelas, a pobreza apenas aumenta. Mas calma, irmão, sua recompensa está na eternidade. O pastor que aparece na televisão pode ser internado em hospital com diária de hotel, mas Deus cuidará da sua falta de leito.
E mesmo com toda essa conjuntura, ainda ouço pessoas falando de uma ameaça comunista. Do petê. Do Lula. De uma bandeira que jamais será vermelha. Lema polarizado durante a ditadura de 1964, e que se faz presente em meados dos anos 2000.
Reuni esses assuntos, porque o café anda amargo, e eu sinto muito pelas pessoas que não tomaram vacina, assim como eu, meus familiares e amigos. Ontem, li uma nota de alguém que havia perdido um noivo, que era filho e amigo de alguém. E isso mexeu demais comigo. Senti raiva do sistema, da falta de compreensão que temos como povo, e chorei por uma nação que perece entre podres poderes.
Eu costumo deixar um abraço, mas te convido a reflexão do silêncio após essa leitura.
Almir S.
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