Meu primeiro MC Lanche

Na última semana estava ouvindo um episódio de janeiro de 2021 do podcast da Nath Finanças, onde ela teve uma conversa muito bacana com a Eliane Dias, empresária dos Racionais. Tenho grande admiração por ambas, mas o que me marcou foi uma fala da Nath Finanças, onde ela relatou que foi ao MC Donald’s apenas quando começou a trabalhar. E logo de cara me identifiquei, porque foi igual para mim. Meus pais não tinham grana para passeios, lanches em shopping ou viagens. A gente vivia na órbita do necessário.

Recordo que eu tinha acabado de completar 17 anos, era Menor Aprendiz em um dos maiores bancos do país. No primeiro dia de trabalho me deparei com aquele mar de computadores em um andar vazio na hora do almoço, e eu pensei: um dia terei um em casa também. Foi um misto de emoções aquele processo, porque até então não conhecia pessoas com rotina de viagem para o exterior, ou com pais que haviam tido formação superior.

Era um mundo à parte para mim. Meu pai era porteiro, minha mãe atendente, ambos vindos da Paraíba no começo dos anos 90 para tentar uma vida melhor. Imaginem que não se trata de uma jornada tão simples, principalmente, porque eles tinham três filhos para sustentar. Então, a gente vivia com o necessário, e eu não era de pedir o que não poderíamos comprar. Por isso, o relato dela me fez pensar que existem outras meninas como a Nath, e outros meninos como eu. Pessoas que vieram da periferia, sacudiram o mundo para conseguir seus espaços. Claro, cada um com suas particularidades e dificuldades. Mas como a mesma origem: a periferia.

E um lanche é apenas a ponta do iceberg! As disparidades sociais são usadas em alguns discursos como uma força motriz, mas na verdade, o quão mais distante você está de coisas simples, a desigualdade social te segrega na formação intelectual, carreira e capital financeiro. Oportunidade tem CEP, e nem sempre chega nas periferias, porque algumas ruas e vielas não possuem um CEP seu. E eu escrevo esse texto, porque minha intenção é reforçar que meritocracia não existe. E que a falácia liberal de que querer é poder, é mentira.

Não temos as mesmas condições, oportunidades, e sobretudo, possibilidades. O Brasil é um país desigual. E atualmente, intensifica cada vez mais essa posição.  Por isso, é fundamental que nossas escolhas políticas estejam voltadas para o atendimento do que o Brasil precisa: políticas de impacto social. E não, o sucateamento da educação, saúde e qualidade de vida de quem está lutando para existir com o necessário. 

Por Almir Santana 

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