É importante falarmos sobre a sociedade antifeminista

Lembrete: O Pânico na TV e o próprio programa de rádio são rasos na amplitude de assuntos. E escrevo esse texto porque vi as falas da Ana Campagnollo versus Manuela d'Ávilla no programa da rádio em 2020. Lembrando que Ana é uma política do PSL (o antigo partido daquele deputado que se tornou presidente), historiadora e professora da rede pública - apoiadora do Escola sem Partido - que se posiciona como conservadora, religiosa e antifeminista.

A pauta sobre feminismo: apesar de não ser meu lugar de fala, peço aqui licença à todas mulheres para falar sobre o movimento.

É importante entender em linhas gerais que o feminismo é um movimento que busca equidade de gênero, diferente do contexto religioso, machista, patriarcal que coloca o homem como figura central em todos os espaços. É importante ressaltar que dentro do feminismo existem ramificações, assim como qualquer movimento social, mas isso não enfraquece ou diferencia a motivação de luta de qualquer grupo dessa comunidade.

Em 2019 fiz um curso no Sesc sobre cultura Afro-Latina, e a professora disse algo que me marcou muito, porque ela indicou que historicamente o lugar mais invadido ao longo da história havia sido o corpo feminino. E de fato quando paramos para pensar na história do país, penso no peso dessa fala, afinal:

- Mulheres indígenas foram abusadas ao longo da história por navegadores, bandeirantes, e por qualquer um que se colocasse em lugar de poder.

- Isso se repetiu com mulheres negras no período da escravidão, e após também.

-  Minha avó, mãe de minha mãe não pôde ser alfabetizada, seu pai acreditava que mulher que sabia escrever era perigosa, porque poderia escrever carta para o namorado.

Mas tua avó era da década de 40 e vivia na Paraíba, Almir. O ano é 2019, e vimos em São Paulo um Bispo de uma grande igreja neopentecostal falando que mulher não deve estudar. Se trata de uma ideologia de dominação, me entende?

- No Nordeste, nas décadas de 80 e 90 moças muitas moças trabalhavam como domésticas nas capitais, e o mais comum nesses casos era a recorrência de abusos sexuais. Eu não preciso dar um Google, porque conheci gente que passou por isso, mas se puderem, pesquisem.

- Tenho muitas amigas, e é perturbador o assédio que as mulheres sofrem na rua. E se acompanhadas por um homem que retruca o assédio com um questionamento, o assediador pede desculpa para o outro homem. A mulher sofre invisibilidade nesse contexto.

- Ser mulher em uma sociedade patriarcal é ter que provar em vários momentos os motivos de ser boa profissional, boa mãe, boa irmã, boa filha. A mulher precisa passar uma imagem espiritualizada, caso contrário sua índole é questionada. Duvidam disso? Busquem entender o funcionamento de nossa estrutura, e se atentem como mulheres são tratadas em sua totalidade.

- Uma mulher que sofre abuso sexual é questionada sobre a roupa que usava no momento, onde estava e o motivo de estar, onde estava, porque parece opcional sofrer esse tipo de violência. Lembrando que no Brasil tivemos casos de mulheres abusadas dentro de casa, no trabalho, na rua, saindo da faculdade, dentro de metrô, ônibus. Enfim, uma infinidade de lugares. Mas haverá sempre alguém que tentará achar uma justificativa de culpa para a vítima.

- Ao longo de minha carreira profissional vi colegas sendo desligadas porque precisavam utilizar a licença maternidade em completude, e não o tempo mínimo, como o esperado pela gestão.

- Vi mulheres ganhando menos e fazendo mais, porém as grandes cadeiras eram destinadas aos homens. Esse tipo de coisa acontece de forma implícita, mas acontece no mercado de trabalho.

- Em 2014, eu vi, ninguém me contou. Um pastor falando para sua comunidade que apenas um homem colocaria o Brasil em ordem. Dilma não teve sucesso político como seu antecessor, mas por ser mulher teve suas falas e ações pontuadas de forma drástica.

- Analisando agora a origem semântica das palavras:

Um homem chamado de vagabundo tem que conotação? Preguiçoso, certo? Uma mulher chamada de vagabunda? Algo pejorativo que invalidará toda sua moral.

- Ao longo da vida o feminino é colocado como ofensivo: Não chore assim, tá parecendo uma menina! E por aí vai.

- E minha última ponderação, para as leitoras desse texto: Peço que reflitam sobre o que deixaram de fazer por serem mulher. Pensando em sua integridade física e moral. Peço aqui uma reflexão.

Enfim, esse texto é apenas para mostrar que o feminismo é uma luta diária, e que não se trata de uma ideologia pagã que acaba com a moral e bons costumes, como já ouvi de algumas pessoas. Essa é uma luta que busca sobrevivência em uma sociedade feminicida que atua fortemente para inviabilizar os direitos das mulheres.

Por Almir Santana


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