O que aprendemos conversando?


Assistindo The Midnight Gospel (O evangelho da meia-noite), série animada de ficção científica do Netflix, comecei a pensar e repensar sobre a importância de uma conversa. A série trata de questões filosóficas, onde o personagem principal realiza viagens em outras dimensões e acaba tendo contato com outros personagens, onde acontecem reflexões existencialistas através dessas conversas.
Minha descrição pode parecer simplista, mas gostaria de compartilhar com você que refletir é simples, afinal fazemos isso constantemente. Entretanto, compreendo que existem contextos que acabam pedindo mais de nós. Por cobrar referenciais. 
Mas pensando especificamente em filosofia, os conceitos que são rotulados de forma incompreensível, surgiram de conversas em praças, e também do entendimento de mundo dos pensadores. Ou seja, o principio é simples. Por agora, meu objetivo não é me aprofundar em questões históricas, mas minha proposta é ressaltar como alguns conceitos surgem através de conversas. 
Estamos em meio à uma pandemia, e desde fevereiro muitas coisas mudaram, afinal o isolamento social é necessário para retomarmos em breve a rotina. Mas enquanto isso não acontece, o que nos resta é o contato através da conversa. 
Além da presença, é preciso entender como o outro pode se fazer presente em nossas vidas. Isso é um desafio, porque conhecemos pouco sobre escuta ativa. Se ouve muito, e se compreende pouco. Mas esse momento exige de nós entendimento para escutar, entender e se articular em meio aos dias. Porque existe um excesso de informações através de canais digitais, o que não é de hoje, mas o que era secundário, se tornou principal e necessário. E em alguns momentos isso parece excessivo, mas entendo que é possível extravasar esse excesso em contato com outra pessoas.
Minha avó materna não foi alfabetizada, ela nasceu em 1937, e seu pai dizia que mulher que escrevia era perigosa, porque poderia escrever cartas para namorados. Infelizmente como não pôde estudar, aprendia com suas primas que estudavam, e sempre através de conversas. Dona Maria era uma mulher de muitas memórias, e o que ela havia aprendido foi conversando. Esse simples ato é uma potência que nos enche de vida, nos guia e ensina. Ouvi dela muita coisa na infância que carrego comigo até hoje, tendo um principio pessoal, mas também de saberes que ainda não entendo, afinal existem ensinamentos que levam tempo para serem maturados. Com ela aprendi sobre como me entender alguém. Já parou para pensar o que aprendeu conversando com alguém? 
Acabo falando de minha avó nesse texto, porque ela é meu referencial de aprendizado através de conversas que tive ao longo dessa jornada. E o Clancy, o viajante de espaços dimensionais que citei no começo trata da questão maternal de forma muito profunda, e em um dos episódios ele pergunta para mãe dele o que fazer quando não souber lidar com o sofrimento, e o conselho que ele ouve é o seguinte: "Você chora." 
Chorar para alguns pode indicar fraqueza, mas é importante aprendermos que fugir de emoções é estarmos afundados nelas. E como ajustar isso? Não há especificamente um ajuste de frequência, mas acredito que conversas terapêuticas nos salvam de nós em tempos pesados. Eu aprendi que conversar soma aprendizado, mas também pode ser libertador. Foi isso que eu aprendi, e eu espero que você aprenda muito mais conversando.

Um grande abraço,

Almir 

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