Na favela, cor é alvo.

Geralmente escrevo e envio o texto mensal do blog na primeira semana do mês, mas precisei de mais tempo para entender o mundo, digerir notícias e acalmar meus ânimos. São tempos trabalhosos, porque percebo uma série de valores que estão distorcidos nesse mundão. E se equilibrar na corda bamba é um exercício que exige muito de quem tropeça no ar.

Poderia descrever o desmonte que o SUS (Sistema Único de Saúde) está passando nos últimos anos, ou falar sobre o Enem que ainda não foi adiado em meio a uma pandemia, mesmo o Brasil sendo um país onde 40% de pessoas ainda não têm acesso à internet. Sendo assim, fica evidente que boa parte dos estudantes não conseguem acompanhar o ano letivo em meio ao distanciamento social. 


Mas no dia 18/05/2020 João Pedro morreu, ele foi assassinado pelo Estado; eu não o conhecia, mas fiquei muito triste com a morte de uma criança assassinada dentro de casa entre familiares e amigos. Segundo o informativo de Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), pessoas pretas têm 2,7 mais chances de serem assassinadas do que pessoas brancas. Ou seja, no Brasil, o alvo têm cor. Há um ano um homem negro foi cruelmente assassinado com 80 tiros pelo exército. Marielle Franco, socióloga, militante das minorias, mãe, vereadora, mulher preta e vinda da favela, foi assassinada com 04 tiros pela milícia que indica ter fortes vínculos com políticos. Não quero fazer desse texto uma balança de balas, mas é importante se atentar a quem está sendo alvejado pelo Estado. 


Ainda não tenho filhos, mas no dia da morte do menino, fiquei refletindo sobre a dor da mãe de João Pedro, na dor da família dele. Me doeu. Repito: Ele estava dentro de casa e foi assassinado pelo Estado. Estado esse que ignora questões sociais, disparidades raciais, prioriza empresários, minimiza direitos do trabalhador, faz continência fascista em protesto antidemocrático, e que segura a Bíblia com uma mão e uma arma com a outra. 


Fora isso, temos um suposto chefe de Estado que faz chacota no dia em que morreram quase 1200 pessoas de Covid-19 em 24 horas, e que posteriormente libera o uso de um remédio como resolução do problema, mesmo sem comprovação científica. Tivemos dois médicos como ministros da saúde que se negaram a recomendar cloroquina como método, mas agora um militar que é paraquedista serve como canal apoiador para essa ação, mesmo sem respaldo técnico. 


Parafraseando Aldir Blanc, compositor e cronista renomado que Regina Duarte desconhece: O Brasil está matando o Brasil. Afinal, o Brasil sabe quem especificamente matar, tendo como premissa que sejam negros, pobres e favelados. Gente que sonha, mas que têm sua vida tirada antes de realizar. Viver no Brasil é sentir medo constantemente, e ter a certeza de desamparo. Eu digo tudo isso, mas nesse país de cristãos, me responderão: E daí, Almir?


A indiferença é grande, mas a luta continua, a periferia será resistência, a arte será resistência. Destaco cada linha desse texto em memória dos que morreram de forma truculenta pelo Estado.

Por Almir Santana 
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Comentários

  1. Que o seu blog ajude a florescer mentes conscientes e que o mundo possa ser amanhã ao menos um pouco melhor do que era ontem 🙏

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